sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Entrevista Roger Chartier

Encontrei a entrevista no site (http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/entrevista-roger-chartier), creio que vale a pena compartilha-la. Espero que gostem, sempre considero produtivo ler estas entrevistas.
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Uma conversa com o historiador Roger Chartier é como um encontro com a própria erudição. Nascido em Lyon, na França, ele conta com simplicidade como o gosto pelos textos literários, pelas leituras dos clássicos franceses e espanhóis, ainda na juventude despertou seu interesse pela História. Sua trajetória intelectual, então, tratou de unir as duas paixões: a história do livro e das práticas de leitura na época moderna.

Diretor de estudos e investigações históricas da École des Hautes Études en Sciences Sociales, Chartier leciona desde 2006 no tradicional Collège de France, onde neste mês de outubro inaugura uma cadeira intitulada “Escrita e cultura na Europa Moderna”. A criação desse espaço de reflexão é resultado da atenção que os historiadores têm dedicado ao tema nos últimos anos. E isso inclui os estudos feitos no Brasil.

Entre sorrisos e gestos simpáticos, Chartier fala sobre seu contato com as instituições e os intelectuais brasileiros e sobre a ausência de imprensa no Brasil colonial. Mas, especialmente, sobre a reconstrução fascinante das formas de se produzir os livros, do impacto provocado pela presença do impresso dentro da sociedade. A emoção de uma história da leitura que abrange aquele espaço de privacidade que se cria entre os olhos do leitor e as letras impressas nas páginas de um livro, de papel ou virtual. Participou desta entrevista Andréa Daher, professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

REVISTA DE HISTÓRIA - Como se deu a sua opção pela História e a sua preferência pelos estudos de história cultural?

ROGER CHARTIER - Há um perigo em responder a esta pergunta, que é o de cair na idéia de uma trajetória absolutamente necessária, enquanto a vida intelectual está cheia de passagens, encontros, oportunidades. Não sei exatamente por que a História sempre me interessou, desde a escola primária. Mais tarde, quando entrei no liceu, meu interesse se voltou ao mesmo tempo para os textos literários. Lia muitos livros clássicos franceses, e quando comecei a aprender castelhano, também os clássicos espanhóis. Quando comecei a fazer trabalhos acadêmicos, no final dos anos 1960, na França, a História utilizava as técnicas estatísticas para a quantificação dos fenômenos culturais e, no fim das contas, a literatura não desempenhava um papel particularmente importante nessa perspectiva. A história da cultura mobilizava as mesmas técnicas, as mesmas fontes que a história demográfica, social e econômica, baseada em dados objetivos. Ela não permitia, necessariamente, responder a perguntas importantes.

RH - Que perguntas seriam importantes para relacionar a História e a literatura?

RC - Por exemplo, era possível, embora difícil para os historiadores dos anos 1960 e 70, reconstruir a produção tipográfica de uma cidade durante um certo período, reconstruir o conteúdo das bibliotecas privadas, a partir das fontes cartoriais, a partir dos catálogos impressos. Mas o que essas análises diziam sobre a leitura? O que diziam sobre a relação entre o leitor e os textos que foram lidos? Evidentemente, muitos liam textos que não possuíam e, como nós, possuíam livros que nunca leram. E, dentro dessa perspectiva, tratava-se de construir um projeto compartilhado de uma história da leitura e dos leitores, entendendo leitura como apropriação do texto, ou seja, o texto incorporado, transformado pelos indivíduos em algo que dava sentido à sua relação com o mundo.

RH Por que o interesse pelas práticas de leitura na época moderna?

RC A palavra “moderna”, pelo menos em francês, tem um sentido ambivalente, porque para muitos significa o tempo contemporâneo. Há os que pensam que saímos da modernidade, que há uma pós-modernidade. Mas para os historiadores, como se sabe, a época moderna vai do século XVI ao XVIII, o que se classificou também de Antigo Regime em francês, a partir do momento em que se pensava a Revolução como um novo regime. Na tradição francesa, os historiadores que líamos, e que têm uma força de escrita ou de invenção intelectual ou conceitual, trabalhavam, em sua grande maioria, sobre a época moderna. Lucien Febvre, fundador dos Annales com Marc Bloch, era um historiador do século XVI. Braudel era um historiador modernista.

RH E como ocorreu sua aproximação com o Brasil?

RC É verdade que se pode ter uma relação com um país, com uma cultura, sem nunca ter estado efetivamente presente nele. Na França, fazíamos muitas leituras sobre o Brasil. Por exemplo, Michel de Certeau ficou fascinado com o texto de Jean de Léry. Isto é mais um Brasil, sem dúvida, textual, imaginado, conhecido por intermédio de obras e de historiadores. Depois, em 1993, tive o primeiro convite para vir ao Rio de Janeiro, no aniversário do CPDOC, na Fundação Getulio Vargas. Começaram, então, relações regulares com diversas instituições, colegas, comunidades intelectuais e científicas. E isso foi possível, me parece, porque no Brasil havia também interesses paralelos, principalmente em torno da história das práticas de leitura.

RH No Brasil, qual a razão deste interesse?

RC No Brasil, a convergência das ciências sociais, como a sociologia e a antropologia, a dimensão histórica e a importância central do tema para a educação criaram este interesse pela história das práticas de leitura. O deslocamento que foi feito da história do livro para a história das práticas de leitura, questionando suas possibilidades, os tipos de fontes, o método de investigação, tem encontrado interesse por parte deste mundo intelectual que se dedica à mesma perspectiva. A cada dia, produzem-se novos textos importantes e interessantes no Brasil sobre esses temas.

RH Como o historiador deve proceder para pensar as práticas de leitura passadas?

RC Nosso grande risco é o de projetar no passado nossas maneiras de ler, pensar, sentir. E sempre devemos pensar na diferença: reconstruir um mundo, que é um mundo diferente, por meio da postura antropológica que deve ter o historiador. Hoje em dia, de modo geral se lê com os olhos, silenciosamente. É como se tivéssemos estabelecido um espaço de privacidade entre o leitor e o que ele lê. Aliás, ler no ônibus ou na biblioteca pode ser definido como um espaço abstrato, imaginário, espaço em que o texto encontra os olhos. A prática de leitura em voz alta tem se mantido apenas em circunstâncias institucionais: lê-se em voz alta na igreja, nas aulas da universidade para ditar conferências, no tribunal para pronunciar sentenças, na escola em situação de aprendizagem, entre outras. No entanto, na época moderna, a leitura em voz alta era muito mais presente dentro da sociedade.

RH Como se lia na época moderna?

RC Muitas formas regulares de sociabilidade, como o salão e as sociedades literárias, estavam fundadas sobre uma leitura compartilhada que podia, depois, alimentar a conversação e o intercâmbio. Desta maneira, há uma leitura em voz alta para os outros, dentro dos meios particularmente alfabetizados, em que cada um podia ler por sua própria conta, mas que é uma forma de compartilhar o texto e, a partir daí, iniciar uma conversação, uma reflexão coletiva. E isto podia acontecer também em lugares menos regulares, por exemplo, como a leitura em voz alta durante uma viagem. Pensava-se, assim, que o texto tinha uma força maior quando era lido por uma voz que o retirava da inércia. Esta é uma primeira diferença entre a era moderna e a nossa: a onipresença da leitura em voz alta como forma da sociabilidade. Há uma segunda diferença que vemos somente hoje em dia, quando se fala de um analfabetismo funcional, quer dizer, de pessoas que podem ler, mas apenas certos tipos de textos, e que para entender o texto devem ouvi-lo, em certo sentido, pronunciando-o ao mesmo tempo. E este tipo de capacidade, que é uma capacidade particular de leitura, certamente era muito mais difundida e caracterizava uma população maior nas sociedades modernas do que hoje, quando se transformou em um dos critérios do analfabetismo.

RH E como pensar em lugares marcados pela ausência da imprensa, como o Brasil colonial?

RC Não havia imprensa, mas circulavam panfletos, libelos, sermões e pasquins em forma manuscrita. Esses materiais desempenharam um papel importante em diversos momentos históricos do Brasil antes da imprensa. Não se deve confundir nunca a circulação da produção escrita com a presença de imprensa numa determinada situação histórica e geográfica. Evidentemente, ao contrário, quando há oficinas de imprensa, a circulação ou a produção dos livros pode se transformar, assim como a produção de textos impressos que não são livros, como os panfletos e os libelos. Todo um mundo de impressos que se relacionam com a atividade comercial, com a atividade administrativa ou religiosa implicava também um uso mais freqüente da escrita manuscrita. Afinal, muitos desses textos impressos tinham espaços em branco que esperavam uma assinatura, um nome de pessoa, uma menção manuscrita. O paradoxo é este: talvez a invenção de Gutenberg tenha transformado a circulação dos livros, mas transformou ainda mais a cultura manuscrita.

RH Qual seria o foco de interesse de uma história da cultura escrita no Brasil colonial?

RC Se faltava a imprensa, talvez se devesse medir, no Brasil, como era esse papel do escrito dentro dessas relações comerciais, administrativas e religiosas. Não se deve focar somente na cultura livresca. Talvez se devesse pensar que muitos textos impressos não são livros, e que muitos textos impressos que não são livros implicam o uso da escrita manuscrita. Significa pensar que a originalidade de uma situação histórica em que não existia a imprensa estivesse mais vinculada à ausência de documentos impressos no cotidiano do que à ausência dos livros. Afinal, como sabemos, havia muitos livros no Brasil, inclusive os que a Inquisição queria proibir e destruir. Esta seria uma maneira de esboçar o tema dentro da perspectiva de uma história da cultura escrita, e não somente na dimensão da cultura dos livros impressos.


RH Que outros campos de investigação no Brasil se relacionam com as suas pesquisas?

RC Creio que a História da Vida Privada no Brasil. O projeto francês foi dirigido por Georges Duby e Philippe Ariès, e depois da morte de Ariès, pediram-me para dirigir um volume intitulado Do Renascimento às Luzes. Tratava-se, é claro, da vida privada no mundo ocidental europeu. Eu não li todos os volumes da história da vida privada no Brasil, mas no primeiro tomo, o que me chamou atenção foi, em termos de comparação, que nos países europeus, o modelo político supõe a existência de uma autoridade estatal que se impõe em um território mais ou menos estável e mais ou menos controlado. Há um vínculo entre o exercício de poder, configurações sociais e estruturas psicológicas. Evidentemente, quando se lê o primeiro volume da história da vida privada no Brasil, fica-se diante um mundo totalmente diferente, pois uma reflexão sobre a dimensão territorial e a dimensão política brasileiras pode encontrar figuras totalmente diferentes, em que há imbricações transculturais que criam formas de relação do indivíduo com as diversas definições de privado: a solidão, a família ou os grupos de sociabilidade. Ainda que utilizando os mesmos conceitos, haverá sentidos totalmente diferentes em relação à Europa no que diz respeito às estruturas familiares, às formas de experiência da privacidade, à relação entre a existência cotidiana e as crenças mais profundas, como, por exemplo, as religiosas.

RH A sua entrada no Collège de France, em 2007, acontece justamente com a criação da cátedra “Escrita e Cultura na Europa Moderna”. O que significa a criação de uma cátedra como esta?

RC É necessário definir o que é o Collège de France, porque é uma instituição tão rara que não tem equivalentes fora da França. Foi fundada em 1530 por Francisco I para ditar matérias que não eram ensinadas na universidade. E as primeiras cátedras foram as de Hebraico, de Grego e de Matemática, enquanto que a Universidade de Paris ditava a formação do Latim e, como se sabe, a Teologia, a Medicina e o Direito. E a tradição se manteve, mais ou menos, através da época moderna. Um segundo momento de importância do Collège de France foi o século XIX, quando o exercício das cátedras era utilizado como uma forma de oposição ao Segundo Império (1852-1870). Ao longo do século XX, foi uma instituição que reconheceu para as ciências exatas uma forma de excelência. No caso das Humanidades ou das Ciências Sociais, se podem encontrar nos corredores do Collège de France fantasmas impressionantes, como Braudel, Foucault e Bourdieu, entre outros. A cátedra que ocuparei a partir deste ano se refere, especificamente, ao tema das múltiplas formas do escrito, da cultura escrita – não somente a impressa – nas sociedades, do século XVI ao século XVIII, e sua importância para as diversas formas culturais. Este espaço só foi possível, me parece, porque nas últimas décadas foram construídos os saberes necessários para fundamentar uma cátedra como essa.


RH Como se pode pensar hoje as relações entre a história científica e o grande público?

RC Isto me parece estar relacionado com uma questão essencial, que é a capacidade, hoje em dia, de representação do passado. A história como disciplina, com seus próprios métodos, critérios de validação e exigências críticas, tal como se entende pelo menos a partir do século XIX, como uma disciplina que produz conhecimento o mais adequado possível ao seu objeto, está capacitada para representar o passado, tendo ao seu lado a literatura. Isto não é uma novidade. Há, ainda, diversas formas de memória, seja a memória de um grupo, de indivíduos, comunidades, ou a memória mais institucionalizada do Estado, das comemorações e dos lugares de memória, dos museus, dos monumentos, que consistem também numa capacidade de representar o passado. E a história como disciplina não é necessariamente a mais poderosa nesse domínio, pois a força de atração do romance histórico, se for bem escrito ou se for escrito segundo os padrões que permitam encontrar um público amplo, é maior.

RH Que força tem hoje a literatura, especialmente o romance histórico?

RC De modo geral, as obras de Shakespeare têm mais força que os relatos dos cronistas. Assim acontece com as formas de representação ficcionais da história, que são os filmes ou as telenovelas. O romance histórico tem como princípio tornar a história presente – algumas vezes, até o ponto de uma imitação das técnicas e da prova histórica, como é o caso das biografias imaginárias ou dos romances que são escritos como se fossem relatos históricos, até mesmo documentados. Há escritores que jogaram com isso, como é o caso de Borges, que se apropriou das técnicas mais evidentes da prova histórica para produzir uma ficção.


RH Qual seria o papel da imprensa na difusão do saber histórico?

RC Parece-me que pode desempenhar um papel essencial. As revistas de divulgação historiográfica correspondem claramente a uma expectativa do público, oriunda da sua relação com a ficção ou com a memória, de comparar, de comprovar uma experiência do passado através do discurso dos historiadores. Não servem para pensar que vamos restituir a história como a única forma de representação do passado. Podem permitir aos indivíduos compreender que cada um pode ter um extraordinário prazer lendo romances históricos – inclusive os historiadores mais sérios –, mas que não se trata do mesmo registro de relação com o passado que o de uma análise que se fundamenta num trabalho de definição de um objeto, de construção de suas fontes, de eleição de um modelo de explicação e de submissão aos critérios de validação da comunidade científica de seu momento. Neste ponto, me parece que há uma tarefa importante destas revistas de grande circulação, mas, evidentemente, com uma tensão permanente: como tornar acessível o saber histórico para pessoas que não são profissionais, e sim leitores de História, sem que a História deixe de ser, ao mesmo tempo, um saber científico? Trata-se de manter a relação com o saber tal como se constrói dentro do mundo universitário, acadêmico, científico, sem que se caia na tentação da história das narrativas de destinos de rainhas, de eventos extraordinários ou de acontecimentos políticos, a história mais fácil e imediatamente comunicável.


VERBETES


Jorge Luís Borges (1899-1986)

Poeta e ensaísta argentino, é um dos mais importantes autores da literatura mundial. De seus escritos destacam-se os contos “A Biblioteca de Babel”, publicado em Ficções (1944), e “O Zahir”, em O Aleph (1949), ambos marcados pelo realismo fantástico.

Escola dos Annales

Movimento historiográfico surgido na França em 1929, conhecido por propor novas fontes, novos temas e o uso de diferentes disciplinas no estudo da História. Foi fundada pelos historiadores franceses Lucien Febvre (1878-1956) e Marc Bloch (1886-1944). Um dos mais importantes expoentes dos Annales foi Fernand Braudel (1902-1985).

Georges Duby (1919-1996)

Historiador francês especialista em Idade Média, professor do Collège de France entre os anos de 1970 e 1992. É autor de clássicos como O tempo das catedrais (1979) e O ano mil (1986).

Philippe Ariès (1914-1984)

Dedicou-se ao estudo da história da família, da infância e da morte. Seus livros mais conhecidos no Brasil são História Social da Criança e da Família (1960) e Um Historiador Diletante (1980).

Segundo Império

Regime monárquico instituído na França por Napoleão III, de 1852 a 1870. Neste período, Paris foi o centro de grandes exposições que refletiam o desenvolvimento econômico francês e o progresso cultural e industrial europeu.

William Shakespeare (1564-1616)

Dramaturgo inglês, considerado um dos mais importantes teatrólogos da Humanidade. Autor, entre outras peças, de “Hamlet”, “Romeu e Julieta” e “Ricardo III”.

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